SONETOS DEDICADOS DA ALMA
À FedraÉs Fedra, a linda filha do amigo
Que me descobriu em meu exílio
E quisera poder contar contigo
No amor que com ele compartilho.
De saída ao ver teus olhos claros
Reconheci o azul de sua alma,
A fonte de onde fluem os dotes raros
E as certezas que lhe dão aquela calma.
E assim, por ver não só confirmação
Mas também beleza própria e inaudita
Me ponho a seguir esse filão
E logo avisto então a doce Bianca,
A tua filha amada e tão bonita
Nascida de tua alma antiga e franca...
Ao Guilherme de Faria
Cuja estória do nosso encontro contei
no conto "Anagramas" (vide o blog "A Prosa de Alma Welt")A ti que me descobriste
Quando estava isolada
Nestes Jardins, tão triste
Longe da terra amada,
Ao pintor e poeta
De quem fiz o anagrama,
Que despindo o puro esteta
Revelou quanto me ama,
Dei-me sim, completamente,
Não guardei nenhum segredo
Pois me pintas lindamente
Nua no verso e nas telas:
Compensando meu degredo
A mim mesma me revelas.
À Renina K.grande artista plástica
à qual me referi no conto "Anagramas"
a ela também dedicado1
A Vida, meu leitor, me quer assim
Amando, desejando, apaixonada.
Quanto mais intensa a minha estada
Mais louros e repouso no meu fim.
Renina, eu sei,já me alertou
Para esse furor que viu em mim.
Uterino, ela disse, e me chocou...
Eu que para o amor à Terra vim!
Sou Alma, o meu nome já diz tudo
E perteço à estirpe de Florbela,
Amando o amor e crendo a vida bela
Refaço em meu destino, que assim mudo,
O percurso das grandes amorosas,
Rubras nos seus leitos, como rosas.
03/02/2002
À Celina L.V.
grande artista plástica
minha amiga2
Cercada de meus quadros nesta sala
Dou-me conta desta minha projeção
Pois nada mais no peito meu se cala,
Que há muito escancarei o coração.
Desenhos, versos e pinturas...
Os poemas sobretudo, transbordantes
Escorrem de mim pelas fissuras
Ocupando tudo, avassalantes.
E então te telefono, a ti, Celina,
Doce amiga, e leio os novos versos
Já que tens a sintonia muito fina
Com a Alma, embora solitária
Em sua alma antiga, feminina,
Na forma e no estilo assim tão vária.
A Giuseppede quem contei episódios no conto
"A pintora pinta" e no romance
"O Retorno dos Menstréis", de Alma Welt3
Tu foste, Giuseppe, quem um dia,
Ou melhor, uma noite me tombou
Sobre a mesa de jantar e sobre a pia
Na cosinha para a qual me convidou.
Era eu inexperiente e amorosa,
Mal chegada do Sul com meus recatos,
Sentaste-me sobre a mesa generosa
A pretexto de tirar-me os sapatos...
E fui teu manjar branco, tua delícia,
Como disseste então com tua malícia,
A toalha para um lado arrepanhando.
Pratos, copos, vinho, o chão manchado,
O castiçal com a vela acesa iluminando
O estupro a tanto tempo acalentado!
À Alinecuja história foi narrada no
primeiro ciclo de sonetos
denominado "Sonetos da Alma"
e no conto "Aline", do livro
"Contos da Alma" de Alma Welt 5
Vê, Aline, estou recuperada
Da imensa dor que me causaste
A minha face branca, já corada
Libera de novo seu contraste.
Cabelo branco... não, é sempre louro,
E brilhante tenho o verde olhar,
Continuo trabalhando feito um mouro
Pois sei que não querias me deixar.
Manda para o Pedro este recado:
Estou viva, pois tenho impregnado
O cheiro teu, qu'ele não pode requerer.
E se ele pensa que teus beijos lhe pertencem
Não faz idéia, não sabe como mentem
Teus lábios já beijados por mulher.
A Jean-Baptistecuja estória narrei na novela "Perséfone"
da Trilogia Mítica, de Alma Welt A ti, louco francês que me querias
Vendo em mim aquela Adèle belle-èpoque
Enquanto esta Alma viva tu não vias,
Em teu sonho levada... e a reboque,
Não quero me queixar pois sei que amavas
Um sonho que meu rosto despertou,
Antigo em ti e no teu pai que o herdou
Na corrente atávica em que estavas.
E qundo defrontei-me com a D'Affry,
Percebo agora, um pouco me perdi
No fascínio do olhar dessa medusa
Que sentada numa trípode, escabelo
Da Pítia de gorgônico cabelo,
Me legou a sua arte tão profusa.
A Jonas,
in memorian
meu aluno, que se foi
e cuja história contei na crônica
"Meu pequeno vizinho" do livro
Contos da Alma
de Alma Welt
Com a paleta de cores e as manhas
Que aprendeste, no alto de um platô
Te vejo, sentado nas montanhas
De Minas, não do quadro do Rousseau.
Negrinho que eu via em pastoreio
Das cores sobre as telas como rêses
Dum rebanho rico, sem custeio,
Que pintavas com alegria tantas vezes,
Jonas, me deixaste tua candura,
A lição que devolveste à tua mestra
(pois te era natural essa postura)
Diante do denodo de mão destra
Com que enfrentaste a cara feia
Da escuridão no ventre da baleia.
Para Marga, Leotácia e Lavínia
minhas vizinhas
cujas recordações foram narradas no meu conto
"Lembrança Preciosa para a Alma Fiel"
dos "Contos da Alma", de Alma Welt Minhas vizinhas belas e maduras
Ao mesmo tempo tão crianças
Em seus sonhos e esperanças
(estas deixadas para as tais vidas futuras):
Lavínia que amava um jardineiro
Do internato, criança como ela
Que escalou um dia sua janela
Pra não mais que um minuto prazenteiro.
Leotácia que amou seu confessor
e viu-o pendurado sem badalo
Na corda do sino, assustador,
E o sonho de amor foi pelo ralo
Das três, que numa linha assim amarga
Não coube aqui a confissão de Marga...
Ao Santiago NazarianJovem autor de "Olívio"
editado pela Talento em 2003Belo jovem escritor
Por talento premiado
Publicando com primor
Teu oblívio atormentado,
Quisera melhor conhecer-te,
Tu que és tão denodado
Dando-te assim a ler-te
Entre os seres isolado
Pois percebo a tua carga
Tão pesada em sua dureza,
Com a visão assim amarga...
E se mostras teu cinismo
Com inocência e sem lirismo
Prenuncias tua grandeza.
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À Fedra de FariaGrande mulher pequenina
De olhar azul tão claro,
Joalheira, feminina,
Um talento assim tão raro
Como todos os talentos
Assim de cartas marcada
Embora disseminadas
Numa estirpe de portentos,
Tendo pai e mãe pintores
Tu passaste dissabores
Em tua infância confusa
Mas,com valente atitude,
De uma família difusa
Emergindo em plenitude
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À
Marta Assumpção Rodrigues
Doutora em ciências políticas, mãe da NinaSensível, mãe, cerebral
Tiveste a tua Nina
Nascida de bela sina
pois sobreviveu ao mal.
És doutora, que sofria
em Deméter, não no cérebro
E salvaste tua cria
Resgatada de seu Érebo
Chorando tuas searas
Por seis meses ou um ano
Devolveste cores claras
À tua filha primorosa
Como faria um decano
Sua tese mais honrosa.
Lucia (de Alma Welt) Por minutos, muitos, miro a irmã
Lucia, que redescobri pasmada,
Que não foi quando guria reparada
Por mim o quanto é bela e minha fã.
Olho o seu perfil, os seus cabelos
E enterneço-me por ela, tão discreta
Que se acha entretida em tais desvelos
Pelos filhos e por mim, que não desperta
Para o fato de ser bela e talentosa
E de ter dentro de si tanta poesia
Que clama e transparece em sua prosa.
E então me aproximo e a beijo,
Ela sorri e passa a mão como fazia,
No meu rosto, na infância, agora vejo...
CONTINUA...